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GRETCHEN VIROU TRASH A musa do piripipi vira-se de um lado para o outro e prova que está longe de perder o trono de “Rainha do Rebolado”. A platéia acompanha o seu giro
Por Joana Araújo
O coro ecoa pela Santa Aldeia:
– Ô, Gretchen, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!
Num canto da casa noturna, para não ser espremida pela pequena multidão, a estudante Fernanda Marques Pinto se surpreende ao saber a atração de logo mais:
– Vou conhecê-la pessoalmente!
Nos bastidores, Maria Odete Brito de Miranda, vestida de branco, calça colada, barriga à mostra e brilhos que fazem mechas nos seus negros cabelos, vai subir ao palco como a principal atração da noite.
“Estou fazendo em média cinco shows por semana”, diz ela, enquanto, sob a luz das lâmpadas que circundam o espelho do camarim, se prepara para assumir a personagem que a tornou conhecida Brasil afora.
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No camarim. Massita & Uras se preparam para animar o show | | | Do lado de fora da casa noturna a noite de sexta-feira ferve. O valorizado bairro de Vila Olímpia, em São Paulo, ostenta uma das maiores concentrações de casas noturnas da cidade. O congestionamento é generalizado. Manobristas, aos gritos, correm de um lado ao outro para oferecer vagas sabe-se lá onde – tudo parece lotado.
– Aqui! Aqui! R$ 10, leva a chave, com seguro.
O desfile de veículos lembra uma grande feira da indústria automotiva.
Garotas de cabelos escovados e auxiliados pela inescapável “chapinha”, exibem roupas ousadas: saias curtas e blusas tipo top. O penteado masculino dominante contrasta com o das moças: predominam os cabelos arrepiados, com muito gel.
Entre as várias opções comuns nas danceterias – samba, rock, MPB, tecno, funk, soul, reggae… – um estilo se destaca como a atração do momento: é o “trash anos 80”, denominação de um tipo de música e de um “movimento” que propõe “resgatar” o “lixo musical” da infância dos jovens de hoje.
– Um dia percebemos que tínhamos gostos em comum, começamos a gravar CDs com músicas dos anos 80 e fazer piadas com elas, de brincadeira mesmo.
Quem explica é Luis Fernando Uras, que conheceu a parceiro André Secaf Massita na sala de aula do curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas.
Massita & Uras são os apresentadores da noite na Santa Aldeia, uma das mais badaladas casas noturnas da Vila Olímpia, que hoje convida para “Trash Mania”, estrelada por Maria Odete… ou melhor, Gretchen, a diva do gênero.
Na porta Darwin Demarch, o host da noite, vestindo um conjunto de cetim azul e um lenço multicolorido, esbanja simpatia.
– Eu me visto assim para causar curiosidade nas pessoas que passam por aqui.
O anfitrião trash completa a miscelânea de cores do seu traje com uma bolsinha de sorriso smile, feliz como o seu.
Seguranças revistam os que entram. Uma tabela informa os preços da noite: R$ 20 para quem apresentar um flyer e R$30 para os desprovidos do pedaço de papel colorido, que vale como convite, e garante o desconto.
Com capacidade para 700 pessoas, a casa recebe 500 indivíduos nessa noite.
Num ponto acima do palco, um telão exibe clipes dos astros Sérgio Malandro e Mara Maravilha.
No camarote, hoje exclusivo para convidados, localizado entre o DJ da festa e o palco, as estudantes Tayra Vasconcelos e Natália Almeida mostram saber todos os passos e trejeitos.
– A gente não falha uma semana. É brega, todo mundo tira sarro, mas se esbalda de dançar – conta Tayra.
Murmúrios já se formam em torno da esperada grande atração.
– Cadê ela? – Questiona um fã ansioso para ver a musa trash.
Mas a música não pára. De volta ao Trem da Alegria, todos cantam o hino de um super-herói do desenho animado, obra da dupla Sullivan e Massadas.
– Eu tenho a força. Sou invencível. Vamos amigos. Unidos venceremos a corrente do mal. La la la la la la la la la la la.... He-Man! Pelos poderes de Grayskull!
No palco, Massita & Uras cumprimentam a platéia relembrando os velhos tempos dos programas do Silvio Santos.
– Boa noite para a caravana da Barra Funda!
Os apresentadores-cantores-animadores ensinam coreografias e o público canta e dança Manequim, do grupo Dominó.
– Manequim, seu sorriso é um colar de marfim...
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Personagem. Darwin, o anfitrião, exibe seu smile | | | Ainda no camarim, a musa fala sobre sua carreira e o movimento Trash 80. Em defesa do título de brega que ganhou o movimento, a artista declara:
– Hoje o brega virou sinônimo de uma coisa classe A. Eu acho superimportante esse pessoal novo resgatando um movimento que foi marcante para as pessoas que hoje estão na faixa dos 40.
Gretchen, que acumula 28 anos de carreira, ainda muito assediada, afirma ter pelo menos de dois a três fãs-clubes em cada estado, mas se surpreende com declarações dos novos admiradores.
– O assédio é muito grande. Inclusive hoje um menino de 18 anos, num chat que participei, queria me dizer que eu era linda. É muito estranho um garoto de 18 dizer para uma mulher de 45 que ela é maravilhosa, que ela é linda, que é a mulher que ele gostaria de conhecer. É muito moderno.
Pouco antes da entrada de Gretchen, o estudante Eduardo Willian se diverte com um chapéu mexicano, emprestado por Massita & Uras.
– A partir de agora adoro o Trash. Para zoar é a melhor balada, não acho isso brega – diz Eduardo, que pela primeira vez assiste a um show do gênero.
Massita & Uras anunciam a entrada da diva. Todos se apertam em frente ao palco. “Tem até emissora de tevê”!, grita um fã eufórico, referindo-se a uma equipe da Band, que aciona seus refletores.
Antes mesmo de dar boa-noite. Gretchen ataca de Boom boom, freak le boom boom, em explícito playback:
– I want you, baby, in my mind. I need, te quiero, Je t´aime, oh. Boom, boom, freak le boom boom.
Gretchen vira-se de um lado para o outro e prova que está longe de perder o trono de “Rainha do Rebolado”. A platéia acompanha o seu giro, todos se movem na mesma direção, em sincronia.
A música nem terminou e seus fãs já pedem empolgados para cantar o Melô do Piripiri, outro grande sucesso da artista.
O rebolado continua ao sabor de Conga, Conga, Conga. Pra lá e pra cá. A letra é um arroubo de criatividade:
– Conga, la conga. Conga, conga, conga. Conga, la conga. Conga, conga, conga...
Gretchen dá uma pausa e fala com a platéia:
– Dizem por aí que isso aqui é brega. Ser brega é ser popular, e ser popular é ser cult.
Os fãs aplaudem a declaração e gritam seu nome em coro.
Ela convida alguns jovens a subir ao palco e dançar o esperado Piripiri. Uma fila forma-se rapidamente entre gritos e empurrões.
– Piripiripiripipiripi, Piripiripiripipiripi, Piripiripiripipiripi, pi! Je suis la femme, oh, oh, oh. Je suis la femme, oh, oh, oh. Je suis la femme, oh, oh, oh. Oh mon amour!
De repente como num passe de mágica, Gretchen se despede e vai embora. Seu show, quase um pot-pourri, acabou. |